À medida que nos aproximamos do final do ano, jornalistas, verificadores de factos e comunicadores em todo o mundo enfrentam um fenómeno que se intensifica numa altura em que as pessoas estão mais atentas ao noticiário: a circulação aumentada de fake news (notícias falsas). Novembro e dezembro, meses marcados por festividades, compras, solidariedade e sensibilidades sociais — como saúde mental — tornam-se períodos nos quais informações enganosas, golpes e campanhas falsas proliferam rápidamente, criando riscos tanto para a confiança pública quanto para a saúde e segurança de comunidades inteiras.
Fake News: um fenômeno que persiste além das eleições
O termo fake news refere-se à distribuição deliberada de informações falsas ou enganosas, muitas vezes com o objetivo de manipular opiniões, causar danos ou obter vantagens financeiras ou políticas. São conteúdos que imitam notícias legítimas, mas que são fabricados e projetados para enganar o público — usando, por exemplo, manchetes sensacionalistas ou redes sociais para alcançar grandes audiências rapidamente.
Esse fenômeno não é novo nem limitado a contextos políticos, como eleições. A desinformação clássica tem também origem histórica, mas a era digital amplificou seu alcance à escala global.
Por que novembro e dezembro são particularmente vulneráveis?
Novembro e dezembro combinam vários factores que tornam estes meses especialmente propensos a um aumento de notícias falsas:
1. Clima emocional e sensibilidade social
Nesta época, muitos temas ligados à saúde, bem-estar e solidão ganham destaque nos media. Por exemplo, a crença de que taxas de suicídio aumentam durante as celebrações de fim de ano é um mito frequentemente perpetuado por notícias falsas, apesar de dados de agências fiáveis, como os CDC dos EUA, mostrarem o contrário. Pesquisas demonstraram que muitos artigos associam erroneamente a época festiva a picos de suicídio, quando na verdade novembro e dezembro têm algumas das taxas mais baixas do ano — um exemplo claro de como desinformação pode moldar a narrativa pública de forma enganosa.
2. Compras e fraudes ligadas às festividades
Com o aumento das compras e transacções online — especialmente durante Black Friday, Cyber Monday, Natal e Ano Novo — surgem também scams sazonais sofisticados: e-mails com ofertas falsas, chamadas que imitam serviços legítimos, sites fraudados e alertas de pacotes inexistentes são todos usados para roubar dados e dinheiro dos utilizadores. Um alerta recente do FBI, por exemplo, mostrou que durante a temporada festiva os golpes de non-delivery e non-payment (pagamentos sem entrega de produtos) foram responsáveis por milhões de dólares em perdas financeiras.
3. Golpes de caridade e falsas campanhas de solidariedade
A generosidade é uma característica marcante desta época do ano. Scammers exploram isso através de campanhas de caridade falsas, criando sites e perfis que aparentam ser de organizações legítimas para recolher donativos e dados pessoais. Estudos recentes também analisam como scams relacionados com doações se multiplicam nas redes sociais, aproveitando a boa vontade das pessoas nesta época.
Os perigos e as consequências da desinformação sazonal
A propagação de notícias falsas durante esta época pode ter impactos reais e prejudiciais:
- Pânico social e ansiedade: Notícias falsas sobre doenças, epidemias ou riscos exagerados podem desinformar a população, levando a comportamentos de risco ou medo infundado.
- Perdas financeiras: Golpes relacionados a compras e doações podem causar prejuízos significativos a consumidores e doadores desavisados.
- Danos à saúde pública: A circulação de informações erradas sobre saúde — desde doenças a tratamentos — contribui para a chamada infodemia, um excesso de informação que torna difícil distinguir entre o que é verdadeiro e o que é falso.
Como jornalistas e comunicadores podem enfrentar a ameaça
Para profissionais da comunicação, reconhecer e combater fake news nesta época requer rigor, estratégia e reflexão:
- Verificação rigorosa de fontes: Antes de publicar, confirme as informações com múltiplas fontes confiáveis e dados oficiais.
- Educação do público: Fornecer contexto, explicar como detectar notícias falsas e promover literacia mediática ajuda o público a questionar informações duvidosas.
- Desmistificação proativa: Desmontar mitos populares — como o falso aumento de suicídios nas festas — com dados e explicações claras, reduzindo o potencial de danos provocados por equívocos.
- Colaboração com fact-checkers: Estabelecer parcerias com organizações de verificação de factos e plataformas de ciência da comunicação pode amplificar a capacidade de resposta à desinformação.
Novembro e dezembro não são apenas meses de festividades — são um período crítico no ciclo anual de circulação de informação, no qual fake news e golpes tiram proveito das emoções, distração e generosidade das pessoas. Para jornalistas, verificadores de factos e comunicadores internacionais, isso representa tanto um desafio quanto uma oportunidade: a de reforçar os padrões de verificação, educar o público e construir uma cultura de informação baseada em fatos. Ao reconhecer os padrões sazonais da desinformação e preparar estratégias eficazes, o ecossistema da comunicação pode ajudar a proteger sociedades inteiras de danos evitáveis nesta época sensível do ano.
Fontes e leitura adicional:
🔗 Fake News e desinformação definida – Wikipédia (conceitos e exemplos) Wikipédia
🔗 Estudo sobre mitos de saúde na época festiva – Annenberg Public Policy Center (evidência sobre suicídio e desinformação) annenbergpublicpolicycenter.org
🔗 Scams sazonais e caridade fraudulenta – Forge Institute (análise de golpes de caridade) Forge Institute


0 Comments